


O século terrível. Ou não?
Ele teve as piores guerras, holocausto
e Hiroshima. Mas acaba glorioso (matéria retirada da revista Veja)
Entre as duas pontas, a humanidade conheceu o que, sob alguns aspectos, foi o período mais negro de sua história. As guerras mais sangrentas já vistas pelo homem foram travadas no século 20. Competiram pelo domínio do mundo os dois totalitarismos, o comunista e o nazi-fascista, que aplicaram projetos monstruosos de engenharia social em milhões de seres humanos e, no processo, cometeram as maiores barbaridades testemunhadas contra multidões indefesas. Em decorrência da disputa ideológica e armamentista entre Estados Unidos e União Soviética, o mundo tornou-se um silo atômico capaz de dectruir toda a vida na Terra várias vezes. É difícil imaginar um século mais terrível do que este.
O século 20 será lembrado ainda por uma mudança espiritual de grande impacto em todos os aspectos da vida humana. Pensadores, cientistas, escritores e pintores, pela primeira vez na história da humanidade, fizeram evaporar de um momento para o outro certezas que levaram eras inteiras para se solidificar. Foi no século 20 que se tornaram relativas coisas concretas como matéria e energia, tempo e distância, da mesma forma que sofreram uma relativização conceitos abstratos como certo e errado, justo e injusto. Isso teria conseqüências de alcance extraordinário na história desse período. O homem que chegou ao limiar do século 20 e aquele que agora se prepara para ultrapassar a entrada do século 21 são criaturas separadas por essa terrível transformação. O primeiro acreditava em verdades absolutas, em códigos morais, na conduta certa e na errada. O segundo olha tudo isso sob o prisma da dúvida. Perdeu as certezas.
Com todos os problemas que perturbam o mundo nos dias atuais, a impressão que se tira deste fim de século é que ele acaba muito melhor do que começou. Eis a grande surpresa do século 20. Ter desembocado num presente estável, quando tudo nele foi violento e imprevisível. Com um pouco de otimismo, pode-se constatar que nos últimos dez anos, pela primeira vez na história da humanidade, a liberdade política e sua irmã gêmea, a liberdade econômica, espalharam-se, em graus variados, pela maioria dos países do planeta. O espectro da guerra é menos presente hoje do que em décadas anteriores, num século que começou com a guerra que acabaria com todas as guerras. Menos indivíduos temem hoje a ira do ditador. Mais gente desfruta bens materiais, maior segurança contra as intempéries e as iniqüidades da condição humana, como as doenças. A expectativa de vida chegou aos 80 anos nos países industrializados. Já beira os 70 nas nações em desenvolvimento.
Sob certos aspectos, este é um período formidável. As descobertas científicas feitas durante o século começam a dar frutos. A quebra do átomo, a decifração da linguagem genética do DNA, as tecnologias limpas, a racionalidade crescente das doutrinas econômicas, tudo isso permite visualizar o futuro imediato com menos apreensão. Milhões de crianças, mulheres e homens ainda sofrem nos bolsões medievais do planeta, mas começa a parecer possível que a miséria deles seja erradicada um dia. A fome tornou-se um fenômeno insular, produzida principalmente por guerras civis no sub-Saara africano. É um avanço notável especialmente quando a lotação da Terra é significativa. Vive-se em um mundo onde o número de terráqueos, mais de 6 bilhões, equivale a quatro vezes o total de habitantes no começo do século.
omodidades mínimas como carruagens ou operações com uso do éter anestésico só estavam disponíveis para a ínfima parcela de 1,6 bilhão de seres humanos contemporâneos do final do século 19. É impressionante que se tenha obtido no alvorecer do terceiro milênio um grau razoável de qualidade de vida para a maioria dos 6 bilhões de habitantes do mundo. Esse período viu o surgimento do avião e da nave espacial, do televisor e do telefone celular, da manipulação genética e dos transplantes, do computador e da internet. Não se sabe como esses campos se desenvolverão no próximo século, mas a expectativa é de que os saltos sejam de magnitude jamais vista. O impacto da internet será seguramente tão grande quanto o da tipografia desenvolvida pelo ourives alemão Johannes Gutenberg em 1455, a grande revolução tecnológica do milênio que está acabando. A disseminação da informação numa velocidade e alcance impossíveis antes da internet tem potencial para instalar uma nova idade de ouro no planeta. Algo parecido com o Renascimento de 500 anos atrás. É com esse grau de expectativa que se transpõe a fronteira para o século que está chegando.
(nota do professor: esse texto foi escrito em 1999 - antes dos ataques terrroristas, da segunda guerra do Golfo...)
Questões sobre o texto e para pesquisa em outras fontes (atenção: algumas respostas são estritamente PESSOAIS - respostas iguais causarão a ANULAÇAO DO TRABALHO!)
1 - Eric Hobsbawn define o século XX como "O Breve Século XX". Retire do texto a passagem que pode se relacionar a essa definição.
2 - Pesquise em outras fontes e responda: qual aspecto do nazismo pode ser considerado o mais "monstruoso", como diz o texto?
3 - Pesquise e responda: qual filosofia era caracterizada pela "crença no progresso", como diz o texto?
4 - "Nada sei sobre a 3ª Guerra Mundial; a 4ª, porém, será disputada com pedras e paus". Essa foi a resposta de Einstein quando lhe perguntaram como imaginava que seria a 3ª Guerra Mundial. Responda:
a - o que Einstein quis dizer com essa frase?
b - retire do texto a passagem que pode se relacionar a ela.
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